“Sou dentista, e agora?” – Guia prático para iniciar a carreira com segurança
Concluir o curso de Medicina Dentária é um marco importante, mas o verdadeiro desafio começa depois. Exercer como dentista envolve decisões legais, fiscais, profissionais e estratégicas que, se forem mal tomadas no início, tendem a gerar problemas difíceis (e caros) de corrigir mais tarde.
Este guia foi pensado para ajudar a transformar o início da carreira num processo consciente, estruturado e juridicamente seguro.
Antes de começar – Preparação mental e definição de objetivos
Antes de tratar de licenças, seguros ou contratos, é fundamental responder a algumas perguntas-chave:
Procuro estabilidade ou autonomia?
Quero trabalhar por conta de outrem ou por conta própria?
Tenho capacidade financeira (e emocional) para investir num projeto próprio?
Prefiro crescer gradualmente ou assumir risco desde o início?
Estas respostas não são definitivas para toda a carreira, mas influenciam diretamente as decisões iniciais. Muitos erros surgem quando se escolhe um modelo profissional desalinhado com os objetivos pessoais.
Regularização profissional inicial (obrigatória)
Sem esta base, não é possível exercer legalmente.
1. Inscrição na Ordem
A inscrição ativa na Ordem dos Médicos Dentistas é obrigatória para o exercício da profissão. Sem ela, qualquer ato clínico é considerado ilegal, independentemente da formação académica.
2. Seguro de Responsabilidade Civil Profissional
O seguro protege o dentista em caso de:
erro clínico,
reclamações de pacientes,
processos judiciais ou pedidos de indemnização.
⚠️ Não é apenas uma formalidade: o capital seguro, as exclusões e o âmbito de cobertura devem ser analisados com atenção, sobretudo em prestação de serviços ou clínica própria.
3. Abertura de atividade nas Finanças
Necessária para:
prestação de serviços,
faturação de atos clínicos,
enquadramento fiscal correto.
Aqui define-se:
o regime de IVA (isenção ou não),
o regime de IRS,
o CAE adequado à atividade.
Erros nesta fase podem gerar correções fiscais retroativas e coimas.
4. Segurança Social
Quem não tem contrato de trabalho deve inscrever-se como trabalhador independente. As contribuições influenciam diretamente:
proteção social,
acesso a baixas,
pensão futura.
Escolher o caminho profissional
Esta é uma decisão estratégica, não apenas operacional.
Opção A – Contrato de Trabalho
Indicada para quem procura previsibilidade, sobretudo no início.
Vantagens
Salário fixo
Férias e subsídios
Menor exposição a riscos administrativos
Desvantagens
Menor autonomia
Possíveis cláusulas de exclusividade
Limitação da progressão profissional
⚠️ Atenção à análise do contrato: responsabilidades clínicas, metas de produção, cessação e exclusividade devem estar claras.
Opção B – Prestação de Serviços
Modelo comum, mas frequentemente mal aplicado.
Vantagens
Autonomia
Possibilidade de maior rendimento
Flexibilidade de colaboração
Desvantagens
Sem férias pagas
Maior carga fiscal e contributiva
Menor proteção em conflitos
⚠️ Risco de falso recibo verde:
Horários fixos, subordinação hierárquica e exclusividade podem tornar este modelo ilegal, com consequências para ambas as partes.
Opção C – Clínica Própria
É o modelo com maior potencial de crescimento — e maior responsabilidade.
Vantagens
Controlo total da prática
Projeto a longo prazo
Valorização do negócio
Desvantagens
Investimento elevado
Burocracia complexa
Responsabilidade legal total
⚠️ Erro comum: confundir competência clínica com capacidade de gestão. A maioria dos problemas surge fora do consultório.
Abrir clínica – Etapas essenciais
Abrir uma clínica não é apenas arrendar um espaço e comprar equipamentos.
1. Estrutura jurídica
Empresário em nome individual ou sociedade
Impacto fiscal e patrimonial diferente
2. Espaço físico
Imóvel licenciado para prestação de cuidados de saúde
Nem todos os espaços comerciais são elegíveis
3. Projetos técnicos
Arquitetura
Especialidades (incluindo radiologia)
Compatibilidade com requisitos legais
4. Obras e requisitos técnicos
Ventilação
Acessibilidade
Proteção radiológica
Segurança e ergonomia
Pode consultar mais informação neste guia detalhado sobre abertura de clínicas em Portugal.
Legalização e conformidade contínua
Uma clínica não é “legalizada uma vez para sempre”.
Inclui, entre outros:
Registo da entidade na Entidade Reguladora da Saúde
Registo e autorização da prática radiológica
Licenciamento do estabelecimento de saúde
Cumprimento do RGPD
Contratos com entidades externas obrigatórias
Contratos de trabalho ou prestação de serviços
Formação adequada e atualizada
⚠️ A desconexão entre o que está no papel e o que acontece na prática é uma das principais causas de problemas em inspeções.
Reduzir riscos legais e financeiros
A maior parte dos problemas não resulta de ilegalidades graves, mas de:
decisões mal informadas,
confiança excessiva,
ausência de acompanhamento especializado.
A prevenção é sempre mais barata do que a correção. E, na saúde, os custos indiretos (encerramentos, perda de confiança, stress) superam muitas vezes qualquer coima.
Conclusão
Ser dentista não é apenas tratar pacientes. É assumir responsabilidades legais, fiscais e organizacionais que acompanham toda a carreira.
Começar bem não garante ausência de problemas, mas reduz drasticamente o risco de erros estruturais. E, no setor da saúde, esses erros raramente dão aviso antes de terem impacto real.