O Que os Dentistas Mais Temem VS Com o Que Realmente se Devem Preocupar

A medicina dentária é uma das áreas da saúde que mais evoluiu nas últimas décadas: novas tecnologias, pacientes mais informados, clínicas mais sofisticadas e maior competitividade no mercado.

Contudo, em paralelo com esse avanço, cresceram também as responsabilidades legais, regulatórias e éticas associadas ao exercício da profissão.

2 dentistas visivelmente preocupados com a gestão do seu consultório.

Introdução

Entre conversas informais, formações e debates profissionais, percebe-se que muitos dentistas carregam receios muito concretos: processos disciplinares, inspeções, reclamações de pacientes ou dificuldades económicas nas suas clínicas.
No entanto, aquilo que os dentistas mais temem nem sempre coincide com aquilo que mais impacto real pode ter na sua carreira e no futuro do consultório.

Este artigo procura clarificar essa diferença: o que os dentistas temem, e aquilo com que, na prática, se devem efetivamente preocupar.

O Que os Dentistas Mais Temem

1. Processos Disciplinares e Ações Judiciais

Este é, provavelmente, o maior medo declarado.

Os dentistas receiam queixas na Ordem dos Médicos Dentistas, processos por alegado erro clínico, litígios longos, dispendiosos e desgastantes, e não serem protegidos pelo seguro de responsabilidade civil

Este receio é compreensível a qualquer profissional de saúde que lida diariamente com decisões clínicas que afetam diretamente a qualidade de vida dos pacientes. Acresce a isso o peso moral e emocional de ser acusado de um erro.

2. Inspeções e Coimas de Entidades Reguladoras

Outro fantasma recorrente são as inspeções de entidades como ERS, IGASM, ASAE, ACT, DGS e outras entidades.

O receio aumenta quando a documentação não está totalmente organizada ou quando a clínica já tem alguns anos e ninguém sabe ao certo se “está tudo em conformidade”.

3. Reputação e Exposição nas Redes Sociais

Num mundo digital, uma má avaliação pode espalhar-se rapidamente.

Os dentistas temem comentários negativos no Google, difamação em redes sociais, grupos de partilha de experiências entre pacientes e crises de reputação difíceis de reverter.

Hoje o “boca a boca” já não é apenas presencial, é público e permanente.

4. Complicações Clínicas e Insatisfação dos Pacientes

Mesmo com boa técnica, nem sempre tudo corre como planeado.

Há receio de resultados estéticos abaixo da expectativa, complicações pós-operatórias, reações adversas e pacientes difíceis, exigentes ou litigantes.

Muitas vezes o receio não é do ato clínico em si, mas da reação do paciente ao resultado, que tem vindo cada vez mais a se tornar intransigente e compreensível.

5. Viabilidade Financeira da Clínica

Finalmente, existe o medo silencioso, menos partilhado mas muito real, o medo de fracassar, que surge com a falta de pacientes, a dependência excessiva de seguradoras, o aumento de custos e carga fiscal e a dificuldade em gerir equipas e recursos.

Este é um medo mais íntimo, mas que pesa diariamente na gestão do consultório.


Curiosamente, os maiores riscos não estão apenas na prática clínica, mas sim na forma como a clínica está organizada do ponto de vista legal, documental e comunicacional. Muitas vezes o problema não é o que o dentista faz, mas o que não documenta, não licencia ou não comunica.

A conformidade legal e documental deve, por isso, ser uma prioridade.

Com o Que os Dentistas se Devem Preocupar

Os dentistas devem preocupar-se com:

  • o licenciamento do consultório e das salas,

  • a existência de contratos de trabalho conformes com a lei,

  • o cumprimento do RGPD e a proteção dos dados dos pacientes,

  • a atualização dos manuais e procedimentos obrigatórios,

  • a existência de consentimentos informados devidamente assinados e explicados,

  • e com registos clínicos completos e objetivos.

É precisamente neste domínio que, muitas vezes, nascem coimas, encerramentos temporários e processos, que poderiam ter sido evitados com uma organização adequada.

Também a gestão do risco jurídico assume um papel central. Mais importante do que temer processos é estruturar a clínica para os prevenir.

Isso passa por:

  • ter consentimentos informados claros e específicos,

  • termos de responsabilidade bem elaborados,

  • orçamentos detalhados e assinados,

  • comunicação transparente quanto a riscos e expectativas

  • e seguros adequados ao tipo de atividade desenvolvida.

Grande parte dos conflitos com pacientes não resulta de erro clínico, mas sim de falhas na comunicação ou na documentação que permita demonstrar o que foi feito e explicado.

Proteção Radiológica

A proteção radiológica e a segurança dos equipamentos constituem outra área frequentemente negligenciada, embora altamente fiscalizada.

Exigem atenção:

  • o controlo de qualidade dos equipamentos emissores de radiação,

  • os contratos com entidades de proteção radiológica,

  • a formação adequada dos profissionais expostos,

  • a sinalética e blindagem corretas,

  • e o registo e inventário atualizado dos equipamentos.

O risco aqui é triplo: legal, financeiro e também para a saúde de profissionais e pacientes, o que reforça a importância de uma gestão cuidadosa desta matéria.

Prevenção de Conflitos

A relação com os pacientes e a gestão de expectativas continuam a ser a melhor ferramenta de prevenção de conflitos.
É essencial:

  • explicar de forma realista os resultados possíveis,

  • evitar promessas de transformações garantidas, registar tudo o que foi explicado,

  • ouvir o paciente,

  • gerir frustrações e responder com profissionalismo a reclamações.

Um paciente bem informado é, geralmente, um paciente menos conflituoso, porque compreende melhor o tratamento, os seus limites e os seus riscos.

Gestão & Sustentabilidade Económica

Por fim, a gestão e a sustentabilidade económica da clínica não podem ser ignoradas. Uma clínica pode ser tecnicamente irrepreensível e, ainda assim, falhar por má gestão.

A atenção deve incidir na estrutura de custos, na análise da dependência de acordos e seguros, no cálculo real do preço dos atos clínicos, na formação em gestão e liderança e no planeamento fiscal e estratégico.

O dentista é, inevitavelmente, simultaneamente clínico e gestor, e ignorar esta segunda dimensão tem consequências muito concretas.

Conclusão

Em síntese, os dentistas vivem entre a exigência técnica, a pressão dos pacientes e um quadro legal e regulatório cada vez mais complexo.

Os medos que sentem são legítimos, mas a forma mais eficaz de lidar com eles não é fugir, é sim organizar, documentar e prevenir.

Mais do que temer processos, inspeções ou reclamações, devem investir na conformidade legal, na proteção radiológica, na documentação rigorosa, na comunicação clara e na boa gestão da clínica. Quando estes pilares estão sólidos, o medo diminui e dá lugar a algo muito mais produtivo: confiança profissional e segurança jurídica.


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