Setembro: Resolver depois custou três vezes mais
Uma clínica licenciada há mais de dez anos foi surpreendida por uma fiscalização que identificou várias inconformidades consideradas corrigíveis.
Nada indicava uma situação crítica: tratavam-se de ajustes técnicos e administrativos que poderiam ser resolvidos com relativa facilidade. A gestão, perante a pressão do dia a dia e o impacto imediato que as alterações poderiam ter na operação, decidiu adiar algumas das correções para um momento mais conveniente.
O erro invisível foi assumir que o tempo jogava a favor da clínica. As inconformidades foram vistas como questões secundárias, sem urgência real, e a ideia predominante era simples: resolver quando fosse estritamente necessário. Algumas medidas ficaram parcialmente implementadas, outras foram apenas discutidas internamente, e a perceção geral era de que o assunto estava controlado, ainda que não totalmente resolvido.
Meses depois, uma nova verificação confirmou que parte das correções não tinha sido concluída. O que inicialmente era um conjunto de ajustes técnicos passou a ser tratado como incumprimento continuado. A margem para soluções graduais desapareceu. A clínica foi obrigada a regularizar tudo num curto espaço de tempo, sob acompanhamento administrativo e com prazos rígidos.
O impacto jurídico traduziu-se na abertura de um processo administrativo e na imposição de medidas corretivas urgentes. Financeiramente, o efeito foi ainda mais evidente: as adaptações que poderiam ter sido planeadas de forma faseada tiveram de ser realizadas de uma só vez, com custos superiores, urgência na contratação de apoio técnico e reorganização da atividade clínica. Para além disso, houve perda de faturação associada à limitação temporária de alguns procedimentos e um desgaste significativo da equipa de gestão.
O que tornou a situação particularmente difícil foi a sensação de inevitabilidade. As mesmas medidas que tinham sido consideradas dispendiosas ou inconvenientes meses antes acabaram por ser realizadas na mesma, mas com custos muito superiores e sem espaço para escolha. Resolver depois não significou poupar. Significou pagar mais, em menos tempo e sob pressão.
O que poderia ter sido feito antes passava por olhar para as inconformidades como indicadores estratégicos e não como meros detalhes técnicos. Planear correções de forma progressiva, integrar os ajustes no ciclo normal de gestão e compreender que o custo da prevenção é quase sempre menor do que o custo da reação teria mudado completamente o desfecho.
A experiência da Legal In mostra que muitos dos problemas financeiros das clínicas não resultam da gravidade inicial das falhas, mas da decisão de adiar a sua resolução.
No setor da saúde, o tempo raramente reduz o problema. Na maioria dos casos, apenas aumenta o preço da solução.
Esta foi a edição de Setembro da rubrica mensal da Legal IN: O Que Não Vem no Processo.
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